planeta coquetel.

Ontem fui num coquetel na Casa de Cultura Mário Quintana, lançamentos de uma exposição de artes plásticas, da professora do jardim de infância da minha irmã mais velha. Artista é um bicho estranho, todo mundo sabe disso. Mas artista plástico se supera. principalmente a turma da arte moderna – uns riscos que qualquer criança de 8 anos conseguiria fazer, um borrão de tinta no canto e um título abstrato tipo “Solidão”, e eis uma obra que retrata a profundidade da alma do pintor, o âmago de sua existência, a essência da arte.  Ninguém entende nada, e todo mundo está feliz assim. Aí eles se reúnem nesses coquetéis, ostentando orgulhosamente seu ar totalmente cult, muito preocupados com a falta de cultura no mundo, imaginando como seria bacana se todos fossem artistas e a Terra fosse um grande coquetel. E sempre com aquela enorme tristeza e dor interior, que eles fazem questão de exibir (não que ela exista, de fato, mas faz parte da imagem). Assim, eles estão salvando o mundo através da arte. Bravíssimo!

Pelo menos eles estão bem vivos.

Mas, no caso, era uma exposição de desenho com modelos vivos. Desenho de gente pelada, basicamente. Eu só fui lá pra beber de graça, então não fazia muita diferença. A tal ex-professora da minha irmã era uma figurassa. Devia ter uns 65 anos, e era modelo pra vários dos desenhos. Ficamos ali conversando, e a bebida não aparecia nunca. Eu já começava a ficar atucanado, achando que não tinha coquetel nenhum, e era tudo mentira pra atrair desocupados, quando anunciaram a apresentação de um coral local. Fiquei curioso, gosto bastante de música, e tal.

Puta que pariu. Quase morri de vergonha alheia. Nunca vi coral tão desafinado, até as letras eles erraram. Me abstenho de maiores comentários. Felizmente, quando acabou o coral, a bebida apareceu. Devem ter percebido o clima tenso que ficou, porque todo mundo ficou com aquela cara de ‘vou aplaudir só pra não pegar mal’, e resolvido liberar a bebida pra acalmar o povo.

No final da coisa toda, tava todo mundo bêbado pra caralho. Um cara virou champagne numa das pinturas, e logo estava lá a artista cult (devia ter uns 40 anos, cara de ex-bicho-grilo-paz-e-amor que se entregou ao capitalismo e agora tenta ficar rica por meio da arte), berrando impropérios dos mais variados tipos e exigindo que o cara pagasse o quadro, e tentando partir pra cima dele.  O pessoal em volta tentava acalmar a situação, e eu observava tudo rindo até não poder mais, que situação esplêndida! De vez em quando, eu berrava (tentando não ser visto) algo como “foi de propósito, o quadro é um lixo”, e a mulher se irritava cada vez mais. Magnífico!

Saí de lá no meio da confusão. Geralmente não é muito bom ficar até o final da história, porque aí a coisa vai se tornando complexa. O que era engraçado vai ficando sério, e o povo vai ficando preocupado. Quem é esperto sai de fininho antes, assim dá pra dar umas boas risadas sem se comprometer depois.

Cambaleei até em casa, caí na cama e dormi como um bêbado.

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