O crime do cavalinho, e outras lembranças.

Era um espaço bem grande mesmo, com um gramado extenso onde dava pra correr, pular, cair, e tudo mais que faz da vida de uma criança uma beleza. Tinha uma piscina, e que piscina! Nove metros de comprimento, por quatro de largura e mais um metro e meio de profundidade. Foi lá que eu aprendi a nadar. Disso eu não lembro, só de ouvir falar. Eu tinha mais ou menos um ano e meio de idade, e meu avô, que estava bêbado, me derrubou na água sem querer. Todos ficaram apavorados, mas eu, bebê, vim mergulhando e ainda falei algo do tipo “de novo” quando saí. E aí desde então eu sei nadar. O legal é que nenhum dos meus primos soube nadar até mais ou menos os dez anos de idade, e por isso eu me achava genial. Enquanto eles ficavam lá, com suas bóias de braço ridículas e infantis, eu nadava e mergulhava entre os adultos na maior desenvoltura. Uma vez eu derrubei sem querer meu primo na água (estávamos brincando de pega-pega em volta da piscina, gênios), e ele quase se afogou. Na verdade não, pois minha irmã mais velha estava por perto e logo pulou na água, de roupa e tudo, pra salvar ele. O maldito teve o desplante de dizer que eu fiz de propósito, mas eu lembro bem como foi, e sei que não tive intenção nenhuma.
Esse mesmo primo tem um vasto histórico de mau-feitorias para com a minha digníssima pessoa. Uma das mais marcantes e traumatizantes foi a história do cavalinho. Maldito.
Um belo dia, andávamos pela rua, bem felizes e sorridentes, ou não, não lembro tanto assim, mas lembro que andávamos. Lembro ainda que estávamos na rua que dava para o pátio dos fundos da casa dele (que depois de um tempo virou nossa casa – eles se mudaram e minha mãe alugou), e lá naquela rua tinha muitas coisas memoráveis: uma casa cm um pátio grande, onde tinha dois cães collie que latiam loucamente, exalando a ferocidade de uma Lessie frustrada, a qualquer movimento na frente da casa. Tinha uma árvore, que dava uma frutinha chamada Ingá, que na verdade é horrível, mas algumas pessoas gostam. Tinha uma turma de meninos malvados que nos ameaçava, e um deles era bem brigão, acho que ele já tinha batido em alguém, mas não lembro quem.
E essa foi a cena do crime. Eu e ele indo pra casa. Nem lembro bem disso também, mas sei que em algum momento achei no chão um cavalinho de plástico laranja, desses bem pequenos, pra brincar de fazenda, ou de guerra, ou de qualquer coisa que envolva miniaturas. Não tinha nada demais nele, mas eu tinha achado, ele era meu, e eu estava muito feliz com isso. Até que eu derrubei o cavalinho no chão, e esse meu primo, bandido, na maior cara de pau, juntou e disse “olha, eu achei, é meu!”. Mal sabia ele que ali nascia um trauma para a vida toda, uma mágoa que existiu em mim até muito pouco tempo atrás, quando ele finalmente confessou o crime. Eu chorei, gritei, esperneei, e nada de ele me devolver o cavalinho. Diz ele que nossas mães inclusive brigaram feio por causa disso, mas nem eu e nem elas nos lembramos disso. 
A coisa toda tomou proporções tão grandes, que em algum momento eu cheguei a creditar que o cavalinho era mesmo dele. Afinal, que tipo de alma malevolente faria isso comigo? Por quê? O que eu teria feito pra merecer isso? Portanto, já até pensava que talvez ELE tivesse achado o cavalinho mesmo, e eu tivesse sido a megera inescrupulosa.
Há alguns meses ele confessou o crime. Ainda riu ironicamente, achando graça. Eu não estava presente, pra sorte e bem estar da saúde física e mental dele. Contou pra minha mãe e pra minha avó. E finalmente a justiça foi feita, e todos sabem quem era bandido e quem era vítima. Há quem diga que está tudo resolvido, mas eu digo que não. Algumas marcas nem mesmo o tempo pode curar.

Eu, a cerveja, o bar e o banheiro (ou Antro de Podridão)

Por Natália Bergmann

Mesa de bar, cerveja gelada, animação. Música de fundo muito agradável: aquela boa e velha sinfonia de vozes ululantes, vindas de todos os lados, uma mais alta que a outra, disparando em todas as direções. E o nível de empolgação e volume é diretamente proporcional a quantidade de cerveja já consumida.
Conversa vai, conversa vem, e chegou a hora. Aquela hora fatídica. Hora de ir ao banheiro. Ela sempre vem. E sempre com uma urgência inacreditável – eu, pelo menos, nunca fico lentamente com vontade de ir ao banheiro quando estou no bar. É agora ou nunca – salve-se quem puder!
Primeiramente, vamos contextualizar:
Você está num bar imundo, aqueles bem tipo boteco.
No balcão tem dois velhos sentados com cara de poucos amigos, tomando cada um sua cerveja, sem nem olhar para os lados. Eles sempre esbanjam um certo orgulho de estarem ali diariamente. Antes de você nascer eles já estavam lá, na mesma hora, todos os dias.
Jovens, bêbados, rebeldes, revolucionários, políticos sérios e técnicos de futebol de plantão, sempre dispostos a começar uma grande discussão sobre como o Elano perdeu o pênalti, e que até sua avó faria aquele gol. Sobre como falta verba pra educação, e se eu fosse vereadora tudo seria muito diferente. Sobre como construir a revolução socialista numa mesa de bar. Sobre como sentimos falta da não tão distante e muito inconseqüente adolescência. E sobre como não sentimos falta disso, também.
Os garçons de um lado pro outro, atentos aos movimentos mais sutis – um dedo indicador levantado, um aceno, um estalar de dedos. Á vezes, depois de umas e outras, sai um “GARÇOM!!!”, mas se a gritaria fica demais a gerência já manda um cala boca especial pra moçada.
A menina que saiu do banheiro, completamente pálida e suada, indicando, no mínimo, ter tido qualquer queda de pressão enquanto estava lá, mas, muito provavelmente, indicando que acabou de vomitar toda aquela cerveja anteriormente citada. Para minha preocupação e desgosto.
Vamos, vamos lá, é um trabalho sujo, mas eu preciso fazer.
Uma leve aproximação e já temos idéia do que está por vir – aquele cheiro de urina – mijo – nova e velha. A gente sabe quando o cheiro está ‘encardido’, grudado, quando tem aquele cheiro forte de amônia, que não sai mesmo que você dê dez descargas. O cheiro de esgoto se mistura. E tem ainda mais um cheiro, que provavelmente tenha sido deixado ali pela menina pálida. Chegamos.
O chão, é claro, está todo molhado. E aí você agradece por não ter saído de all-star naquela noite, e torce pra que tudo aquilo seja água. A porta, pra variar, não fecha direito. Tem que sempre ficar cuidando de soslaio, pra ver se não entra alguém querendo vomitar, se drogar, fazer sexo, ou, em último dos casos, fazer xixi.
E o vaso? O vaso já está de uma cor que nem sei explicar – e ele parece ter sido um dia branco. Há respingos de qualquer coisa por todos os lados, uns já velhos e encardidos, outros com uma estranha aparência de serem recentes. Deus me ajude. Eu não ia me sentar ali mesmo, afinal, nenhuma mulher que se preste senta em banheiro de bar, nem de faculdade, nem de shopping, nem de lugar nenhum, que não tenhamos conhecimento dos hábitos de higienização. Mas só de estar perto de um objeto tão feio e sujo, me dá um desgosto profundo. Sério, meu amigo já pegou sarna num banheiro desses.
Agora vem a pior parte. Como eu disse, nós mulheres não sentamos. A coisa toda pode até parecer simples – é só “agachar”, sem encostar as pernas, a bunda, ou qualquer outra parte do corpo em lugar nenhum, e deleitar-se na satisfação de sua necessidade fisiológica de eliminação de líquidos. Simples. Aham. SIMPLES. Me poupe.
Vamos recapitular: eu estou completamente bêbada. Não posso sentar ou encostar qualquer parte do meu corpo no vaso, nem mesmo a roupa. O chão está encharcado. A porta não fecha. Ok. Ok??
Imagina a cena: bêbada, o mundo fedendo e girando ao meu redor, enquanto eu tenho que segurar as roupas para que não encostem no vaso ou no chão, ficar na ponta do pé para não molhar os pés com aquela água mais que suspeita, me segurar na parede, que é pra não cair (nem quero imaginar isso), e, ao mesmo tempo, segurar a maldita porta com o outro pé, pra que ela não abra de repente, e alguém, no mínimo, me veja naquela situação deplorável. E é lógico que não tem papel higiênico, então, pra fechar com chave de ouro, dou aquela bela sacudida de quadris.
Fim de papo. Encarei o desafio e desempenhei meu papel com maestria. Agora é só voltar pra mesa e tomar mais cerveja, com a consciência limpa e a bexiga vazia, e sabendo que daqui a no máximo quinze minutos começa o inferno novamente – uma vez que se vai ao banheiro, que se “abre a torneira”, seu destino de freqüentador assíduo daquele antro de podridão está selado, pelo menos por mais essa noite, até a hora de ir embora.
Fim.

Existe diferente entre as coisas como são,

as coisas como deveriam ser,

e as coisas como você as vê.

Ninguém mais se lembra,

mas tão pouco sabemos

desta nossa condição,

humana assim,

animal assim,

que nossas certezas

são tão vazias quanto nossa razão.

Tudo o que sei,

é que nada sei.

Aurora, pt. 1

Acho estranho pensar em Guaíba.

Cidadezinha da região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde morei até mais ou menos seis anos de idade.

Tinha uma avenida grande à beira rio, grande e bonita, onde passavem muitos carros, e tinha uma sorveteria. E também era por ali que se chegava na casa de um amigo meu super legal. Tinha um bar lindo chamado Caizinho, onde os adultos sempre iam (duvido muito que fossem mais de 3 ou 4 vezes por ano, mas eu lembro como se fosse sempre.). Lá no Caizinho eu lembro de correr entre as mesas, jogar iô-iô (era uma campanha publicitária de refrigerantes, algo assim – iô-iô’s com marcas estampadas nas laterais), e ficar no trapiche dos fundos, tentando achar pedalinhos em forma de cisne. Eu não sei se alguma vez teve algum deles no Caizinho mesmo ou se eu vi em outro lugar e simplesmente transportei pra lá, é uma lembrança bem vaga. Mas é mesmo uma lembrança, eu acho, essa dos pedalinhos.

Em alguns trechos, tinha umas muretinhas na lateral da rua, que serviam como proteção, eu acho, pra ninguém cair no rio. Lembro muito de passar correndo por ali, tentando correr de lado, como se corresse na parede. Era realmente difícil, e muito legal.

Dali dava pra ver a Usina do Gasômetro, que ficava do outro lado do rio, em Porto Alegre. E dava pra ver uma ilha que tinha servido como prisão durante a ditadura militar. Achava aquilo incrível, ainda que não fizesse idéia de o que era a ditadura militar, só sabia que era ruim e tinha homens maus.

Mais a frente tinha a Praça da Maçã. Tinha esse nopme porque tinha um brinquedo genial: uma maçã gigante pendurada num cabo, que ia andando de uma torre pra outra como se estivesse voando. A parte legal é que a gente podia sentar na maçã e ir encima dela. Quer dizer, não podia sempre. Lembro que muitas vezes ela não estava lá, e lembro, ou acho que lembro, de alguma vez já ter sido pequena demais pra andar nela. Essa praça era muito grande, tinha até pista de skate, campo de futebol, pracinha (com balanço, vai-vem, gangorra, etc), e um brinquedo que era super legal, e acho que na verdade era algum tipo de equipamento público para praticar exercícios. A pista de skate parecia tão grande pros nossos tamanhos diminutos (nós, eu, meus primos e evenmtuais amigos), que nossa brincadeira era ficar correndo de um lado pro outro dela, tentando subir. A gente nunca conseguiu, acho. Uma vez passei por lá vários anos depois, e descobri que a tal pista era tão pequena que eu com um pulo bem impulsionado conseguiria subir, enfim.

No final da rua ficava a casa de uma amiga minha, a Hanna, que era filha duma amiga bicho-grilo da minha mãe. Tinha bastante verde na casa dela, várias plantas. Pelo menos eu lembro assim. Ela tinha vários brinquedos legais também, mas não lembro quais. Claro que não era só isso o que tinha no final da rua, mas é só isso que eu tinha pra fazer praqueles lados, então é só o que lembro.

Acho bom e estranho lembrar de lá, mesmo. É sempre assim, meio lúdico. As lembranças de vários anos se misturam, e eu não sei se tinha dois, ou quatro, ou seis anos. Sempre vêm à minha mente como se fosse tudo bom, tudo feliz, tudo tranquilo.

Carta ao meu vizinho escarrador.

Sr. Escarrador,

quem lhe escreve é um (a) amigo (a).

Sinto-me na obrigação de alertá-lo sobre a total inadequação de suas tosses e escarradas diárias na varanda – principalmente durante as refeições.

Isso é realmente nojento, e acredito que todos nas proximidades ficariam muito gratos se o senhor passasse a executar sua performance dentro de casa.

Você se surpreenderia com o conforto que um banheiro pode oferecer.

 

Atenciosamente,

O (a) Amigo (a)

meta de vida.

Tocava o violão sem parar. Tocava, tocava pensando nisso ou naquilo, a cabeça aqui ou acolá. Simplesmente tocava, e acho que nem se importava tanto com o som que saía do instrumento, o importante é que distraído e colorido ele tocava, mais sentindo que ouvindo, apreciando cada acorde. Em Lá maior, transitava pelas passagens brasileiras, lembrando grandes e nem tão grandes nomes da música, uns versos próprios, e também alguns bastante impróprios, talvez não próprios para ele, por que naquela ocupação, a única coisa própria era tocar, tocar e tocar, independente da sonoridade do tocado.
E assim, tocando, ele compreendia a complexidade do mundo, toda a teia de variados tipos de relacionamentos possíveis, embora eu pense que nem percebesse isso, pois tudo o que ali se via, era um homem que tocava e sorria; tocava e só ria, o que não faria muito sentido para muitos, afinal, quem vai entender alguém que compreende o mundo sem saber que o compreende?
Ás vezes até me parecia hesitar, a expressão ficava mais cinzenta, e então baixava o tom, e lá ia ele, tocando chorinhos em Lá menor, lamuriando-se em Dó sustenido e suspirando em Ré Bemol; parecia ignorar minha presença, parecia ignorar o local público em que se encontrava, parecia ignorar aqueles tantos que o ignoravam – por que muitos o ignoravam. Quem se importa com alguém que toca sem saber o que toca, ri sem saber do que e chora sem derramar lágrimas?. Posso quase jurar que em muitos momentos o violão demonstrava mais sentimento e expressão que ele, que tocava, com a incrível capacidade de chorar e sorrir sem emoção, e de se emocionar sem chorar ou sorrir.
Quando eu crescer, eu disse, quero ser que nem ele.

eu, John Lennon.

Ontem tive uma epifania.

Eu tava atirado no quarto, dedilhando a guitarra devagar, pensando na vida, na entrada pra faculdade de música, na péssima relação com minha família,  que vai ficar aqui enquanto eu vou lá cair no maravilhoso mundo de festas e pessoas interessantes da universidade… Enfim, pensando na vida, não preciso explicar muito isso.

Percebi que já tenho 21 anos e ainda não sei pra onde minha vida está indo. Quero muito algum sucesso no mundo da música, mas não sei se isso pode acontecer… As chances são enormes, e muito pequenas, ao mesmo tempo. Geralmente eu falo que eu sou um gênio em ascenção. Com certeza minha cabeça é muito mais musicista do que eu – consigo imaginar uma sinfonia inteira se quiser, instrumento por instrumento, timbre a timbre, qualquer coisa – mas não consigo executar nem um décimo disso. Portanto, conclui-se que o melhor caminho a tomar é ir pra tal da universidade mesmo, aprimorar o que já sei e virar, de fato, gênio.

Faz algum tempo que estou lendo uma biografia de John Lennon, que ganhei no meu aniversário esse ano. É um livro enorme, cheio de informações preciosíssimas para mim – desde as peripécias do pequeno John, enquanto menino, até seus (supostos) pensamentos, dúvidas, opiniões, etc. Não fui muito longe, devo ter lido no máximo um terço do livro, e para mim ele ainda está ali com exatamente 21 anos, sem saber direito o que vai ser de sua vida, chegando ao ponto de quase desacreditar em sua futura carreira brilhante de ícone do rock and roll e de uma série de outras coisas. Mas John Lennon era SPARTACUS também, e, como deveria ser, deu tudo certo.

Na verdade, toda vez que fico meio mal, por qualquer motivo, vou lá e leio um pouquinho. Sinto quase como se o próprio Lennon entendesse exatamente do que se trata. Me baseando no que dizem sobre ele neste livro, sou exatemente o mesmo cara que ele. Exatamente. A única diferença é que ele começou a querer ser big star um pouco antes que eu, mas não muito. Nós compartilhamos da mesma opinião sobre praticamente todas as coisas, e agimos parecido, embora eu ache que ele devesse ser mais pomposo, pois, antes de ser John Lennon, ele é inglês, e aí sabe como é né. O fato é que a semelhança é inegável, realmente.

Basicamente, o que estou querendo dizer, é que se ele morreu em 1980 e eu nasci em 1988, posso muito bem ser a reencarnação do cara – ignorando todos meus princípios básicos de não acreditar em tal tipo de disparate.

Tendo em vista o tamanho da descoberta, idolatrem-me.

talking about my generation.

Me irrito pacas com esse bando de imbecís acéfalos que os mais velhos ousam chamar de ‘minha’ geração. O que eles fazem? O que eles querem? Quem são eles? Essa turma não tem uma identidade, não tem personalidade. Não tem nenhuma causa a ser abraçada por todos. Nenhum movimento cultural, nenhuma ditadura militar, nenhuma revolução.  Até tem, mas eles não conseguem ver. Foram muito bem doutrinados e convecidos a acreditar que o tempo de mudanças acabou, está tudo bem agora – a política é uma merda, mas se chama democracia, que beleza! Todo mundo rouba de todo mundo, mas somos livres para escolher o ladrão mais legal. Revolução é coisa de comunista, movimento cultural é coisa de hippie. Não tem mais grandes bandas poraí. Todas elas têm em seu público um grupo seleto de jovens de um determinado estilo e meio social. Não se vê emos se misturando com mods na mesma festa, por exemplo. Eles não são unidos por nada, não têm conexão, e não querem ter.

Estão todos na eterna busca e construção da vida ideal padrão – nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Claro, na adolescência todo mundo (ou quase) tem um sopro adicional de vida. É o momento crucial, o ponto em que eles podem decidir se querem viver vivos ou mortos. Todo mundo faz festa, faz sexo, fica muito louco, e poraí vai. Mas no fim, a grande maioria continua fazendo o que se espera deles. Até a adolescência deles é planejada. Eles vão fumar e beber escondidos, experimentar maconha, namorar, fazer muita festa…. Mas claro, se esforçando pra tirar boas notas na escola e entrar para a faculdade, afinal, temos um futuro brilhante pela frente. Aí se formam, arrumam um emprego bacana, constituem família, trabalham o dia inteiro pra sustentar os filhos, depois se aposentam, ficam velhos, e invertem os papéis com os filhos, que passam a cuidar dos pais. Isso no modelo ideal, se não acontecerem ‘incidentes’ no caminho, tipo divórcio,  grandes brigas de família, demissão do emprego, etc. Desconfio que no meio de um incidente desses, poderia se reviver algumas pessoas. Mas enfim… Céus, há quanto tempo é assim? Ah, são tão poucos os que escolhem ser vivos.

Talvez eu seja muito prepotente por pensar assim e achar que estou vendo tudo isso de fora, achar que posso ver as coisas como elas realmente são. Talvez elas nem sejam assim, afinal.Talvez eu seja mais um bostinha qualquer. Mas não me parece muito possível. Essas pessoas são muito NORMAIS – e essa normalidade deles me parece completamente absurda. Sério, como é que pode?

Mas eu até entendo, deve ser mais fácil ser um imbecíl acéfalo mesmo. A vida deles parece muito fácil mesmo – eles já nascem com ela toda pronta, é só seguir a receita. A vida de gente viva é mais difícil. Eu jamais conseguiria me habituar a trabalhar num escritório, por exemplo, fazendo tudo o que me mandam sem questionar o porque, ou sem nem saber o que estou fazendo. Para eles, isso é normal. Aí a gente é obrigado a se virar de algum jeito, afinal, querendo ou não, vivemos no meio da lama toda, e não tem como sair muito fora. Eu ainda não sei o que vai ser da minha vida, não tenho nenhum plano muito sólido. Talvez eu entre pra faculdade, pra conseguir um pouquinho mais de espaço no mundo, e um pouquinho mais de volume na minha voz. Mas não sei ainda.

Por enquanto, me dedico a ser um filho da puta de primeira, que não é ninguém no mundo, e não tem nada melhor pra fazer do que ficar aqui criticando a sociedade em rede mundial, sem ao menos apresentar uma alternativa de mudança – porque eu, sinceramente, não sei o que poderia ser feito. Mas eu queria que eles se ligassem que ALGUMA COISA precisa ser feita.

dia de crise.

Mau dia, mau dia.

Acordei ao meio dia, quebrando um relógio biológico que demorei um bom tempo pra conseguir ajustar.  Eu tava acordando demanhã todo dia, e, por incrível que pareça, gostando disso. Acordar demanhã é bacana, o dia fica mais produtivo. Eu fico mais produtivo, pelo menos. Acordar tarde é vadiagem certa: acorda detarde, liga a televisão, arruma uma coisa fácil e rápida pra comer, e aí não precisa nem sair da cama, o dia tá feito ali mesmo. Desde que tenha cigarros, e eu não tinha.  Mau dia, mau dia. Me arrastei até o mercadinho, comprei cigarros e uma boa carga de bolachas recheadas.

Passar o dia todo na cama sem fazer nada pode ser muito pior do que parece. Fico revezando meu tempo entre a minha doce Rita (minha guitarra), as bolachas, algum filme ou coisa do tipo na televisão e o computador. Que grande bosta, eu sou mesmo um inútil!  Essas crises de achar que eu deveria me aquietar e me juntar ao resto do mundo têm acontecido cada vez mais, mas eu não posso, não posso. Imagina, quanto tempo de vida disperdiçado? Anos e anos me esforçando para modelar a mente mais analítica, imparcial e alheia aos agentes alienantes que eu pude, e da qual eu me orgulho pra cacete,  pra depois calar a boca e viver, por livre e espontânea vontade, um teatrinho de vida ideal? Jamais! Resistirei.

Mas, definitivamente, esse é um daqueles dias em que eu me envergonho de não estar trabalhando, estudando, ou algo assim. Um dia eu ainda supero isso e viro um sem-vergonha assumido, mas enquanto isso, e principalmente pelo fato de eu estar sem grana pra nada, precisava tomar uma atitude. Liguei pra minha irmã, que conhece uma boa parte da turma da boemia da cidade (mais gente viva em volta de mim, que maravilha!), e ela disse que vai me arrumar um trabalho num bar de um amigo. Não seria nada sério, eu só trabalharia lá de vez em quando. Quando o cara precisar, ele me liga, e eu vou. Um tipo de trabalho de garçom-freelancer que parece fazer sucesso entre os estudantes há anos. Eu já trabalhei algumas vezes assim em outros bares, e no fim das contas é até divertido ficar servindo cerveja para os bêbados. Bêbados são muito, muito engraçados.

Então é isso, agora eu vou me arrumar e vou lá falar com o dono do bar. Sei que em algum momento me arrependerei, afinal, a partir do momento que eu combinar algo com ele, terei um compromisso, uma RESPONSABILIDADE, e eu realmente odeio ter responsabilidades. Mas o que se pode fazer, afinal?

C’est la vie.

planeta coquetel.

Ontem fui num coquetel na Casa de Cultura Mário Quintana, lançamentos de uma exposição de artes plásticas, da professora do jardim de infância da minha irmã mais velha. Artista é um bicho estranho, todo mundo sabe disso. Mas artista plástico se supera. principalmente a turma da arte moderna – uns riscos que qualquer criança de 8 anos conseguiria fazer, um borrão de tinta no canto e um título abstrato tipo “Solidão”, e eis uma obra que retrata a profundidade da alma do pintor, o âmago de sua existência, a essência da arte.  Ninguém entende nada, e todo mundo está feliz assim. Aí eles se reúnem nesses coquetéis, ostentando orgulhosamente seu ar totalmente cult, muito preocupados com a falta de cultura no mundo, imaginando como seria bacana se todos fossem artistas e a Terra fosse um grande coquetel. E sempre com aquela enorme tristeza e dor interior, que eles fazem questão de exibir (não que ela exista, de fato, mas faz parte da imagem). Assim, eles estão salvando o mundo através da arte. Bravíssimo!

Pelo menos eles estão bem vivos.

Mas, no caso, era uma exposição de desenho com modelos vivos. Desenho de gente pelada, basicamente. Eu só fui lá pra beber de graça, então não fazia muita diferença. A tal ex-professora da minha irmã era uma figurassa. Devia ter uns 65 anos, e era modelo pra vários dos desenhos. Ficamos ali conversando, e a bebida não aparecia nunca. Eu já começava a ficar atucanado, achando que não tinha coquetel nenhum, e era tudo mentira pra atrair desocupados, quando anunciaram a apresentação de um coral local. Fiquei curioso, gosto bastante de música, e tal.

Puta que pariu. Quase morri de vergonha alheia. Nunca vi coral tão desafinado, até as letras eles erraram. Me abstenho de maiores comentários. Felizmente, quando acabou o coral, a bebida apareceu. Devem ter percebido o clima tenso que ficou, porque todo mundo ficou com aquela cara de ‘vou aplaudir só pra não pegar mal’, e resolvido liberar a bebida pra acalmar o povo.

No final da coisa toda, tava todo mundo bêbado pra caralho. Um cara virou champagne numa das pinturas, e logo estava lá a artista cult (devia ter uns 40 anos, cara de ex-bicho-grilo-paz-e-amor que se entregou ao capitalismo e agora tenta ficar rica por meio da arte), berrando impropérios dos mais variados tipos e exigindo que o cara pagasse o quadro, e tentando partir pra cima dele.  O pessoal em volta tentava acalmar a situação, e eu observava tudo rindo até não poder mais, que situação esplêndida! De vez em quando, eu berrava (tentando não ser visto) algo como “foi de propósito, o quadro é um lixo”, e a mulher se irritava cada vez mais. Magnífico!

Saí de lá no meio da confusão. Geralmente não é muito bom ficar até o final da história, porque aí a coisa vai se tornando complexa. O que era engraçado vai ficando sério, e o povo vai ficando preocupado. Quem é esperto sai de fininho antes, assim dá pra dar umas boas risadas sem se comprometer depois.

Cambaleei até em casa, caí na cama e dormi como um bêbado.

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